Laura desceu e aproximou-se, julgando-se despercebida.
_Bom dia senhorita, disse ele sem se virar.
_Oh,bom dia.
Ela de repente sentiu-se envergonhada, ele sabia que estava sendo observado?
_Não se assuste senhorita, como pianista deveria saber, músicos têm os ouvidos apurados, seus passos são leves e delicados, mas ainda assim a ouvi descer as escadas, parar e se aproximar.
_Oh, me desculpe, eu não quis...
_Está tudo bem. Muito prazer, eu sou Paul Rian, e senhorita deve ser a quem a senhora Debret me deu a incumbência de transformar num prodígio e, pelo que ela me contou isso não será difícil.
Laura baixou os olhos, ele a encarava com tanta determinação, como quem examinava uma peça antes de comprá-la. Embora seu olhar fosse frio e profissional, ela estava encabulada.
_ A senhora Debret é um tanto eloqüente demais em seus elogios. Eu sou Laura, e sim, serei sua discípula. Prometo esforçar-me, sei que é um homem muito ocupado Monsieur, ademais, não sei quanto tempo terei.
Seus olhos tornaram-se anuviados.
_ Estarei ao seu dispor por quanto tempo for preciso senhorita, tenho uma divida eterna com a senhora Debret.
Não era sobre o tempo dele a quem Laura se referia, sabia que seria arrancada daquele idílio, tão logo seu pai lhe arranjasse casamento.
_Bem, senhorita, se não se importar, gostaria que executasse essa peça para mim, preciso saber em qual nível se encontra.
Laura o levou até a sala de musica, ele não pode deixar de notar-lhe a elegância ao sentar-se ao piano, tinha um talhe esbelto e seus olhos brilharam ao correr os dedos delicados pelo teclado. Posicionou a partitura e começou os primeiras notas.
_Não! Assim não senhorita.
Ele a interrompeu, aproximando-se.
_ É preciso alongar as mãos antes de começar, senão acabará com dedos atrofiados e não conseguirá segurar nem uma pena, muito menos tocar piano.
Aproximou-se mais, Laura nunca havia estado tão próxima de um homem, sentiu-lhe o cheiro, viu a sombra de sua barba.
_Posso? Perguntou-lhe enquanto olhava para as mãos dela.
_Sim, balbuciou timidamente.
Sentiu-se estranha enquanto ele exercitava suas mãos e dedos.
_Viu, deve fazer isso sempre, antes e depois de tocar.
Suas faces estavam vermelhas e ela estava levemente tremula. Ainda assim, conseguiu concentrar-se nas notas. Ora ou outra ele a interrompia para corrigir uma nota.
Definitivamente, aquilo a perturbava.
_Muito bem senhorita, vejo que não será um dos meus piores trabalhos.
Laura sorriu e ele percebeu que seu sorriso, embora custasse a aparecer, era do tipo que enchia todo ambiente, não podia negar que ela era atraente, embora fosse pequena esguia, sua beleza parecia vir de dentro e não necessitava de adorno. E o cheiro, Deus do céu, aquele cheiro que ele não pudera ignorar toda vez que se aproximava. Tentou manter o autocontrole, mas, inúmeras vezes se imaginou desfazendo aquela trança. Ela era tão doce. Aquela atração a primeira vista não era coisa que lhe acontecesse. Atração, por Deus, o que estava a dizer! Ela era apenas uma menina e ele já passava dos trinta, e nenhuma mulher jamais chamou sua atenção desde..., ele abanou a cabeça para afastar o pensamento.
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