quarta-feira, 7 de julho de 2010

Tórridos Acordes- Parte I

Uma cena bem típica aquela, uma jovem ao piano e, à sua volta orgulhosos pais que a expunham para alguns casais de amigos. Todos desfrutavam em completo silêncio do concerto, em petit comitê, que Laura proporcionava. Ora ou outra o silencio era quebrado por suspiros entusiasmados da platéia, maravilhados pelo talento da pequena jovem que dedilhava com maestria o antigo piano da família. Laura era tímida e retraída, porém, ao piano, era como se outra pessoa passasse a existir, ganhava força e estatura. Seu talento sobressaia de tal forma que toda ela se agigantava.
A jovem contava nessa época dezoito anos, o momento propício para casar-se e tornar-se uma dócil e obediente esposa e dona de casa. Laura tivera uma educação requintada, professores particulares com os quais aprendera de artes á línguas, de matemática à filosofia. Era capaz de discutir sobre qualquer assunto com qualquer pessoa, independente de faixa etária ou classe social. Seus olhos negros eram vivazes e pareciam estar sempre a procura de algo, era pequenina e magra, quase não lhe era necessário o uso do espartilho, o que rendia às suas criadas um pouco trabalho para apertá-lo, os seios pequenos quase sempre eram contidos por suas golas altas que lhe cobriam até o pescoço, trazia sempre os cabelos longos e claros presos e, por muita insistência de sua mãe, em dia de festas, aplicava um pouco de carmim nos lábios e usava uma jóia da família, Laura tinha a beleza contida de uma Virgem , no entanto, apesar de sua aparência austera, seus olhos denunciavam que a qualquer momento algo dentro dela ia se romper com a força de uma enxurrada.
A festa em sua casa era mais uma tentativa dos seus pais de arranjar-lhe um pretendente, exibindo-a para as famílias mais ricas e influentes da sociedade. Laura cumpria seu papel de filha obediente, esperava que seu destino se cumprisse, sem entusiasmo, mas também sem nenhum sofrimento, afinal, para isso fora tão bem educada.
Uma chuva de aplausos encheu a luxuosa sala quando Laura tocou a ultima nota da peça que executava. Ouviu indiferente aos elogios, apenas sorria educadamente.
_ Laura minha querida, você esteve ótima. Falava animadamente a senhora Debret enquanto beijava-lhe as faces.
_ Obrigada senhora Debret, a senhora é muito gentil, cometi algumas falhas, não cheguei nem perto da perfeição.
_Ora minha querida, está sendo modesta, foram apenas dois errinhos, imperceptíveis aos ouvidos leigos que aqui estão. Era justamente sobre isso que conversava com seus pais, sobre seu futuro como a brilhante pianista que é.
_Nós duas sabemos qual o futuro que espera por uma jovem senhora Debret, um bom casamento e se Deus for bondoso, meia dúzia de filhos.
_ Ora Laura, estamos no século XIX, as coisas não são mais assim, existem outras possibilidades. Venha, vamos conversar, tenho algo a lhe dizer.
A senhora Debret era uma rica viúva que gastava os dias e a herança do falecido marido em tudo que tivesse ligação com as artes, patrocinava jovens poetas, pintores, atores e toda sorte de artistas que caísse em suas graças, apesar dos seus quase setenta anos, exibia jovialidade e energia de uma jovem, dizia que a arte tem um poder rejuvenescedor, como no Retrato de Dorian Gray.
_ Sente-se querida.
_Obrigada.
_Olhe, estive conversando com seus pais, você tem muito talento minha querida, e é tão dedicada aos estudos de piano, não é justo que tudo isso se perca. Há alguns anos, patrocinei um jovem pianista, ele foi a Paris completar sua formação e hoje é um dos melhores que existem, tenho certeza que ele não se importaria em ajudá-la a se aperfeiçoar e tornar-se uma grande pianista.
_ Eu agradeço seu empenho em me ajudar, fico sensibilizada, mas meus pais nunca permitiriam senhora Debret.
_ Eu já cuidei dos seus pais minha querida.
_ Como conseguiu?
_ Apenas os convenci de que isso acrescentaria apenas mais um aos seus incontáveis dotes, e que os mais requintados cavalheiros da corte implorariam para tê-la como esposa.
_ Nem sei o que dizer.
_ Prepare-se querida, amanhã conhecerá monsieur Rian, estará em ótimas mãos.
_ Obrigada, muito obrigada. Não sei como agradecer.
_Apenas deixe seu dom fluir minha cara, talvez não tenha outra chance, como eu não tive. Agora deixe ir, aquelas velhas corocas estão loucas para falar da vida alheia.
Laura beijou-lhe as mãos e voltaram para a sala, porém seu pensamento não estava mais ali, alçara vôo para lugares tão longínquos que a própria Laura espantou-se de tamanha ousadia, mesmo que em pensamento

Um comentário:

  1. Bybyan se eu ja te admirava agora eu fico de pe para te apaludir contiune assim espontane e carismatica pois vc merece todo o sucesso que Deus, a Vida e seus esforços irao dizer. Aqui eu deixo o meu muito obrigado por tê-la como educadora e agora espero feliz como amiga. Parabens! Sua aluna Joh( turma 02 CSU)

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